Pílulas de Poesia: É todo mundo do mesmo morro.

“Ô Zâmbi, vê se manda parar com aquelas brigas lá no morro.
Quando os homens chega, chutando as porta e revirando tudo,
Todo mundo fica assustado,
E a criançada com aqueles olhos arregalados,
O coração saindo pela boca.
Ai! Meu Deus.
A tal de lei de invasão de domicílio, lá no morro, não vale nada.
Ah! Zâmbi lembrei de outra coisa:
Vê se clareia a cabeça da minha gente lá do morro.
Para eles pararem de tanta cachaçada, maconha e briga.
Devagar, tá legal.
Mas quando os nego estão doido, dão tiro à toa à toa.
E quando eles inventam de brincar de bandido?
É o de baixo atacando o de cima,
O da direita atacando o da esquerda.
E o pior é que ninguém é da direita nem da esquerda.
É todo mundo do mesmo morro.
É a miséria brigando com o miserê.”

Clementina de Jesus e Martinho da Vila – ASSIM NÃO, ZAMBI – Martinho da Vila.
Álbum: Clementina de Jesus – Clementina e Convidados.
Ano de 1979.

Uma voz rouca, grave e rasgada sintetizava, nos anos 1970, a expressão de um Brasil com forte herança africana e singular formação religiosa. A dona da voz tão inconfundível tem nome: Clementina de Jesus da Silva.

Neta de escravizados, nasceu no ano de 1901, na cidade de Valença, na região cafeeira do estado do Rio de Janeiro. Mas, foi só aos 63 anos que ela ganhou os palcos e revolucionou o samba, após ter sido descoberta pelo poeta e futuro produtor musical Hermínio Bello de Carvalho. O jovem ficou fascinado pela sambista fluminense e passou a prepará-la para o espetáculo Rosa de Ouro, show que a consagraria.

Rainha Quelé, como ficou conhecida Clementina de Jesus, criou as filhas sozinha e trabalhou como empregada doméstica até o começo da vida artística. Negra, idosa e pobre, Quelé foi exemplo de força e luta para o povo brasileiro, em especial para as mulheres, como destaca Janaína Marquesini, uma das autoras do livro Quelé, A Voz Da Cor, que conta a história da mulher que atravessou décadas de samba.

O estilo de samba de Quelé era o partido-alto, cantado em forma de desafio e de improviso. Partideira de mão cheia, Clementina de Jesus imprimiu em suas canções a luta contra a discriminação racial e o machismo, se tornando uma das maiores referências da música popular brasileira.

Roberta Pisco

Roberta Pisco é fotógrafa e produtora cultural, com mais 10 anos de experiência no mercado cultural do Rio de Janeiro. Aprendiz de escritora e de viajante, sempre tem uma lista enorme de filmes para ver e de livros para ler. Meio palhaça, meio nerd, é especialista na arte de rir de si mesma e de provocar reações inesperadas. Carioca convicta, apaixonou-se por Paraty, onde mora e desenvolve seu trabalho como fotógrafa. Junto com Guido Nietmann, criou a Fotos Incríveis, empresa especializada em imagens de altíssima qualidade nas áreas de imobiliária e ambientes, gastronomia, náutica, still (produtos), paisagens, aéreas, etc. Atualmente fotografam para as melhores empresas da Costa Verde.

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